AS RIQUEZAS DO INTERIOR

Riquezas do Interior, o livro de estréia da escritora mineira Elenise Evaristo, abre caminhos no cenário literário brasileiro com a telúrica brejeirice de Minas Gerais. É em horinhas de descuido, como diria o também mineiro Guimarães Rosa, que Elenise capta momentos do cotidiano das cidades do interior e, com uma linguagem leve e acessível, convida o leitor a conhecer as riquezas de suas lembranças e de sua terra. Amalgamado ao seu estilo, Elenise utiliza seu repertório de leitora que vai de Drummond a Proust, passando por Machado de Assis e Rachel de Queiroz, para dar forma a sua escrita. Nas 27 crônicas que compõem o livro, a escritora traz à tona a imagem dos contadores de “causos”, a alegria das festas tradicionais, a inata religiosidade do povo de Minas, a singularidade da cultura popular das Gerais e reverencia personalidades marcantes e importantes por sua “mineirice”, como Fernando Sabino e Juscelino Kubitschek. Sob o olhar sensível e aguçado da autora, são resgatados valores humanos que, ao contrário do que se pensa, não ficaram perdidos no tempo, mas adormecidos no íntimo de cada um. Riquezas do Interior é um convite para que esses valores sejam despertados e para que possam ser postos em prática o quanto antes. Um mergulho no interior de cada indivíduo. Uma percepção das riquezas do ser humano. É o que Elenise Evaristo desafia seu leitor a fazer. * Texto escrito por Ana Carla Nunes e Beatriz Badim de Campos

Amada Minas Gerais!

Sempre fui leitora assídua do Jornal Hoje em Dia, de Belo Horizonte, embora às vezes não dê pra ler todos os dias. Inclusive, andei trocando idéias sobre nossa amada Minas Gerais com o colunista Tião Martins, fato esse que comentou no citado jornal na época.
 O fato é que revirando o Hoje em Dia, achei um texto em que o mesmo autor fala sobre mim, texto que ainda não havia lido; fiquei surpresa e feliz, e trancrevo aqui o texto. Viva nossa amada Minas Gerais!

                              Duas meninas

Uma vive ao Norte e a outra ao Sul de Minas Gerais. São quase irmãs, embora nem se conheçam. Essas duas meninas, Elenise Evaristo e Márcia Yellow, talvez nunca venham a se encontrar, mas são unidas por uma paixão que se revela em cada linha que escrevem: amam com fé e orgulho a terra onde nasceram e também assinariam, sem hesitar, a "Canção do Exílio", de Gonçalves Dias.

Não imaginem que elas se alimentem de provincianismo, visão estreita ou xenofobia. Nada disso. Seriam facilmente cidadãs do mundo, pois tudo que é humano lhes diz respeito. Mas voltariam sempre para Montes Claros e Três Corações, trazendo o planeta na palma das mãos, para compartilhar com os seus conterrâneos, da mesma forma que dividem o amor pela terra natal com aqueles que não a conhecem.

Márcia adotou Yellow como "nom de plume" por brincadeirinha com a sua preferência explícita pelo amarelo. E Elenise estuda a origem e o significado psicológico dos contos de fadas, em sua maioria provenientes da Europa, porque sabe que eles são universais. E, portanto, mineiros.

Uma delas, a Márcia, criou poemas corajosos, nos quais revela o mais profundo desprezo pelo convencional. Tão corajosos e desafiantes que ainda estão inéditos, à espera de um editor inteligente. E Elenise publicou há tempos um livro intitulado "Riquezas do Interior". A obra trata do interior de Minas, que é a sua pátria íntima (em perfeita convivência com a pátria Brasil).

Afinal, aqui pra nós, quem tem Ouro Preto, Diamantina e São João Del Rei, para falar só de algumas das nossas gemas de maior valor, que outra pátria íntima poderia escolher?

Essa mineiridade militante, mas sem preconceitos bairristas, sempre foi uma das melhores características da nossa gente. Enquanto os paulistas, por exemplo, acreditam que o Brasil começa e acaba em São Paulo, e os gaúchos vivem a ilusão de que ninguém mais sabe montar um cavalo, os mineiros podem conviver - sem qualquer incômodo - com a riqueza, a glória e as lendas alheias.

Essa pátria mineira, que tem raízes no fundo do quintal e, ao mesmo tempo, produz uma cultura universal e recebe todos os povos como se fossem compatriotas, é algo que ninguém explica.

Márcia Yellow e Elenise Evaristo habitam esse território quase intraduzível da mineiridade, cuja própria existência foi negada por mineiros ilustres, como o professor Francisco Iglesias, e afirmada apaixonadamente por outros (entre eles, um mestre fluminense de inegável lucidez: Alceu de Amoroso Lima).

Discípulas de poetas e pensadores, Helenise e Márcia não carecem de argumentos eruditos ou românticos para justificar a paixão por Minas, Montes Claros e Três Corações. Amor a gente não explica e nem defende, elas parecem dizer aos seus leitores. Amor se vive e até se morre dele. Quem viveu, sabe. E quem não viveu ignora o que a vida tem de melhor.

Esse é o grande enigma mineiro, que muitos julgam ser apenas fábula, coisa do passado ou invenção esperta, mas que as duas meninas tratam como coisa viva, real, contemporânea. Herdeiras do encanto de Minas, elas mergulham no hoje e cuidam do amanhã.

É bom saber que há meninas assim, em nosso tempo. Tomara que milhares delas floresçam em todos os cantos de Minas, como os girassóis de Van Gogh, tão imortais quanto os profetas de Aleijadinho.

Assim, não esqueceremos o nosso passado. E o futuro da nossa patriazinha estará em boas mãos.


Tião Martins
Postado em 7 de Maio, 2010

Texto disponível em:http://www.hojeemdia.com.br/cmlink/hoje-em-dia/ti-o-martins-1.168/duas-meninas-1.114380






















A crônica de Machado de Assis

     Um pouquinho sobre a crônica de Machado de Assis; a crônica , meu gênero favorito, que sobrevive aos dias de hoje... 

         Para alguns estudiosos, a crônica brasileira propriamente dita começa com Francisco Otaviano Almeida Rosa, em folhetim, No J. Comércio do Rio de Janeiro, tendo participação também no Correio Mercantil, assinando este último até 1.854, no advento dos românticos.Conforme dados da Enciclopédia da Literatura Brasileira (2001)é notável frisar que : “foi a crônica que abriu caminho ao romancista , afeiçoando os leitores contemporâneos às suas fantasias de um lirismo transbordante”.
           A crônica machadiana , assim como em outros cronistas do século XIX, tende a elaborar estratégias textuais fundamentadas em regras e preceitos teóricos. Produzidos num ambiente de ideais românticos subjetivos e certa liberdade criadora, não atinge completamente o ideal clássico do texto. Neste contexto, Machado de Assis ainda se encontra na luta por uma tradição literária no Brasil. Suas crônicas atualizam os ensinamentos clássicos, porém, numa linguagem não submissa e articuladora do real. A crônica entrelaçada com a formação tradicional dentro da Literatura Brasileira, cria assim um modo ficcional, compreendendo a linguagem como elemento marcante.
            O bom cronista daquela época é aquele que, paradoxo, não se ajoelha aos fatos, sendo o método narrativo mais importante que o simples relatar dos fatos ocorridos na semana. A crônica, então, induz o sujeito empírico a produzir as construções que o identificam socialmente como o agente criador dos sujeitos dentro da linguagem. O escritor, aqui, cria uma relação dialógica entre texto literário e o cotidiano; como narrador perspicaz encontrado no autor, visa um leitor que participe de seu jogo alusivo, dentro da cena política e social que retrata.

imagem:google.

Três Corações, 127 anos!

De Goiás eram três boiadeiros
E do rio as três voltas no chão
Três violas traziam os tropeiros
Fundadores do nosso torrão.


Parabéns Três Corações pelo seus 127 anos!
Três Corações dos antigos  boiadeiros, De Jesus, Maria e José , das três voltas do Rio Verde, da famosa Feira de Gado, do bom café,  do genial escritor Godofredo Rangel, da praça com seu famoso coreto, de céu límpido,  das serestas de outrora...um pedacinho no enorme coração de Minas  Gerais.

Para fechar, uma genuína homenagem de minha aluna  Larissa dos Santos  Borges, da 5ª série, 6º ano B, da E.E. Américo Dias Pereira, também tradicional em Três Corações:





Três Corações é a terra
Que Deus nos deu de mora
Nela nasci e cresci
Nela quero ser enterrada.

 Três Corações das fazendas.
 Dos gados, dos cafezais...
  Deixá-la um dia talvez
 Mas esquecê-la jamais.

 Três Corações dos ipês,
  das quaresmeiras em flor,
  Quem a vê jamais esquece
  mas se derrete de amor.

 Nas voltas do Rio Verde
Três Corações vão se formando
são da Sagrada Família
sempre nos observando.


Parabéns Três Corações pelo seus 127 anos!!!
Larissa, continue sempre escrevendo!

imagem: google


Devo confessar que há muito já era apaixonada pelas músicas de Marcus Viana, sua voz e instrumentos, arranjo perfeito da sua boa música. Música espiritual, instrumental, rock sinfônico, new age? Prefiro não definir seu estilo, só sei que sua música acalenta. Desde quando ouvi o “Sagrado Coração da Terra” me apaixonei, e posteriormente, me rendi ao seu som  com a letra de música Pátria Minas.  Impossível não ouvi-la e senti-la penetrando no coração dos que têm um mínimo se sensibilidade. Pátria Minas Imaculada! O fato é que sua música vem sendo tema de várias novelas, conquistando não só o Brasil, como o mundo inteiro.Só  sei a música de Marcus Viana me transporta para uma outra realidade, é surreal aos meus ouvidos.
Depois veio Paula Fernandes. Conheci sua música por acaso, na abertura de uma novela.Ouvi e parei e amei. O sucesso veio vindo com outras músicas, sempre  falando de amor, de natureza e  raízes do interior ; conquistando até críticos mais severos. Quanto vozerio em tamanha delicadeza. Chegou devagar, tocou com o grande músico citado Marcus Viana até ser convidada para cantar com o rei  Roberto Carlos. Não preciso dizer mais nada.
Me pergunto  por que resolvi falar destes dois artistas. O fato é que acabei de ouvir Seio de Minas ,  “... esse estado um diamante...”da elogiada cantora, e me transportei à Pátria Minas de Marcus Viana,e resolvi escrever esta singela crônica. O que tem esses dois cantores em comum,o sucesso conquistado...o jeito meio retraído ,  a multidão de fãs,? Pasmem... Modéstia à parte, nem preciso responder, são mineiros! Fecho o texto fazendo referência à outra crônica que li, do exímio escritor Zuenir Ventura. Em elogio aos mineiros, ele diz que Minas tem que se mostrar, que aqui existem vários artistas de primeira, ainda desconhecidos. O referido cronista diz que Minas não se mostra. Tímida Minas Gerais . Faz ainda um apelo aos artistas mineiros para mostrarem a cara. Concordo com o exímio cronista e ainda acrescento: Minas não se mostra, mas ela é encontrada.  E quando descoberta, no seu modo modo calado, no seu jeitinho , contagia!

O ouro fulvo do ocaso as velhas casas cobre...
Olavo Bilac

Revendo fotos de quando estive em Ouro Preto,-abro uma observação- noto ando revendo muita coisa ultimamente, um estado da alma, um estado de nostalgia que me pega em momentos da vida, o fato é que estou neste estado saudoso de não sei o que...momentos que se apoderam de mim, e me rendem crônicas saudosistas , amanhã melhoro talvez ou não, mas me gosto assim, sinto-me inspirada.Fotos fazem parte da vida, rever fotos talvez seja uma necessidade, reavivar momentos e sonhos. Então, recomeço, revendo fotos de Ouro Preto...Cidade encravada nas montanhas,lá está a cidade, uma emoção toma conta, emoção indizível vendo aqueles lindos casarios.Ouro Preto exala história por suas ruas meio declinadas, lampiões que relembram a época dos Inconfidentes. Como disse é indizível descrever Ouro Preto, tem de estar lá para sentir, palavras seriam intraduzíveis pela emoção palpitante que corta as veias coronárias. Se não uso elementos anafóricos para retomar o vocábulo Ouro Preto, é porque Ouro Preto é a cidade, assim como Drummond é o poeta, comparação idiossincrática na esperança de que entendam meus sentimentos .

Faço esta pequena introdução, na verdade quero falar sobre as casas de Ouro Preto, em outra crônica falo mais sobre a sublimada cidade cravada entre os verdes montanhosos. Ouro Preto, nome dado devido ao ouro coberto com uma camada de óxido de ferro, antiga Vila Rica.Revi aqui as fotos e me deparei com o Museu das Casas dos Contos, a vista de lá como de outros pontos estratégicos da cidade mostra os telhados que cobrem as casas, cenários dignos de um quadro.Os telhados ordenados numa sequencia de cor hipnotizam os olhos, ultrapassando os olhos físicos em olhos metafísicos dignos da escrita de Fernando Pessoa.

Conforme se vai andando na cidade, subindo pelas igrejas, os telhados turvam aos seus pés, ou melhor, aos seus olhos, como a incitar a conhecer nossa história, histórias que aconteceram naqueles casarões. Casas que abrigaram senzalas, os risos e as mazela de nosso sangue, o ouro de Minas.Casas que acolheram e excretaram Inconfidentes,casarões que cobriram e descobriram ensejos políticos.Casas de felizes senhoras , de alegria e choro. Casas que presenciaram o suposto suicídio de Cláudio Manuel da Costa, igrejas que celebraram missa pelo próprio, numa época que era sacrilégio oferecer missa a um suicida. Detalhes peculiares e obscuros de nossa história. Casas palco hoje de uma Universidade consagrada, pousadas, barzinhos que abrigam estudantes, estudantes que entrem uma cerveja e uma rodada de torresmo discutem nossa história. Um passado que vive entre os casarios de Ouro Preto, pilar de nossa cultura.

A crônica de Fenando Sabino

Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial.F. Sabino

Estive relendo pra variar,  o livro: A vitória da Infância, de Fernando Sabino. Todos que me leem sabem que tenho o eterno menino das crônicas também como referência entre tantos outros.Devo me confessar feliz , já que a crônica vem cada vez mais conquistando seu espaço, em contrapartida aos leitores ingênuos que não sabem a riqueza de uma verdadeira crônica... Mas falemos um pouquinho do meu ídolo, já que me sinto inspirada.

Fernando Sabino nos mostra que a crônica não é tão despretensiosa como aparenta. Embora não se prenda a temas, a crônica para ele não aceita toda e qualquer matéria, escolhendo um fato, então. Fato que pode ser o disperso conteúdo humano,ensinando, comovendo e deleitando os leitores. Através de seus textos, suaves e extremamente ricos, solidários, o autor descobre a beleza do outro, numa expansão metafísica onde não cabe o egocentrismo. Recriando o que vê seja numa mesa de bar,seja dando carona a uma menina raquítica em sua época, Fernando Sabino nos transporta a pessoas atuais, semelhantes a tantas outras que já vimos, analisando-os de forma leve, sua marca principal, sem deixar de lado uma visão crítica da sociedade.

Outro traço que carrega consigo é sobre a infância, que coloca em suas crônicas recheadas de brincadeiras mineiras, o sumido jogo de bolinhas de gude, o bodoque (triunfo ritualístico de todos os meninos da época).

Tecer fatos, forma do cronista se comunicar. Fernando Sabino afirmava ser um prosador do cotidiano, esperando a boa acolhida dos leitores no constante encontro diário que teve com os acontecimentos, através do lirismo reflexivo do fino humor, ou da crítica da sociedade, usando a crônica como seu instrumento, sendo um dos melhores cronistas do Pós-Modernismo.

O escritor buscou de certa forma entender que o cotidiano se torna mais suave de ser vivido quando a convivência nos leva a olhar para fora de nós mesmos, vendo a beleza do outro , a beleza dos detalhes que sua sensibilidade sabia tão bem captar.Teve um verdadeiro encontro marcado com a vida.

imagem: google

















Conversa saudosa



Mas hoje em dia tudo é muito diferente...


Se existem hábitos saudáveis, diga-se de passagem,aos quais as pessoas tendem a cumprir, uma que me aborrece por demais é ir ao dentista. Mas pasmem, ainda deixei um dinheirinho para cumprir este dolorido ritual, coitado dos que esperam meses por uma vaga no sistema de saúde. Porém, mesmo não esperando por uma vaga no SUS, me agoniza ter que esperar algumas horinhas para ser atendida. , mais ainda do que o torturante motorzinho. Detesto esperar, assim como a espera pelo médico, na fila do banco entre outros. Pois bem, retomo aqui a sala do dentista. Hora marcada para às 10:00 da manhã. Como boa mineira com medo de perder o trem, já fico de prontidão no consultório às 09:45.

Como sei que é demorado, levo sempre comigo um bom amigo: o livro. Estou eu lendo meu livrinho. Tento me concentrar, há muitos pacientes. A televisão ligada. De vez em quando paro minha leitura, observo ao redor, o local, as pessoas, realmente, como é chato esperar! Volto ao meu livro, quando noto um senhor que chega. Ele cumprimenta um homem,que deve ter por volta de uns 50 anos, sentado no banco almofadado de espera.Parecem velhos conhecidos que não se veem há tempos. Meu faro de cronista alerta: vai ter conversa boa.

Tento, mesmo assim, ler o livro, que nesta altura já está pela metade, mas não adianta, os ouvidos estão pregados na conversa entre os dois homens,- o que chegou, um senhorzinho de 71 anos( que fiquei sabendo ao revelar a idade para o outro),que pelos trajes parece ser um antigo proprietário de terras.Esses fazendeiros bem à moda antiga.

(...)__Mas quantos anos o senhor está mesmo?

__Ah, já estou velho, 71, meu fio.

__Mas não parece...Também, o pessoal da geração do senhor tá mais vivo do que nós.

__ Ahh, mas isso é porque antigamente nóis comia melhor. Lembro que quando moço, acordava cas galinhas,tomava um café com rapadura, pão com gordura de porco...

__ É mesmo né??E os toucinhos de antigamente pareciam mais puros, davam verdadeiros torresmos bonitos.

Fecho definitivamente o livro, devo admitir, a conversa me daria esta crônica que agora vos escrevo. Disfarçadamente, presto ainda mais atenção naquela prosa.

__Sinto saudades de quando o caminhão partia cum as latas de leite para entregá na cidade. Ainda tenho arguns fregueses, mas são tão poucos, que nem precisa mais do caminhão...

__ O senhor ainda tem aquele carro de boi?

__Tenho o carro lá, um tisouro conservado, mas o boi memo..

__ Uma pena. E aquele seu Zé Tonho, que tinha uma rocinha lá pros lados do senhor? Lembro dele quando criança, adorava contar um causo, depois nunca mais o vi.

__ Tadinho, nem me fale, era migão do meu pai, morreu do coração faz uns dois anos, mudou lá pros lados de São Bento, mas sempre a gente tinha contato, morreu véinho, espertinho que só...

E foram contando fatos, pessoas,o passado que nunca morre...E assim viajei um pouco na história dos dois.Já não estava impaciente pela demora do dentista, me chamou atenção do suposto fazendeiro, com sua fala caipira ( e linda),entusiasmado com o diálogo.

A conversa parecia que ia longe, logo depois, infelizmente fui atendida. Reflito: hoje os leites são em caixinhas, algumas pessoa nem sabe o que é o verdadeiro e delicioso torresmo,e já não se tem tempo para os amigos...fecho com a frase que o senhor falou: “ Bão tempos aqueles”.








































Se vivo estivesse, Fernando Pessoa completaria hoje 123 anos, mas pasmén, ninguém vive até os 126 anos, e acho que chegar a tal proeza seria extremamente aborrecente ( ou não?)discussão está que realmente não me interessa.Bom, retomo Fernando António Nogueira Pessoa. Um grande poeta que buscou na metafísica a essência de sua criação.grande gênio capaz de criar vários heterônimos, devo confessar que o autor ainda é um enigma para mim, quanto mais leio sobre , mais fica uma sensação de querer saber mais ,aprofundar sobre seus heterônimos, a sede pela esfinge.

Poeta ímpar (hoje todos se dizem poetas...) deixou grande legado para os Modernistas e é um assunto polêmico até hoje, devido ao seu jeito introspectivo de ser, devido à riqueza de sua poética.

Em sua obra: Autopsicografia, Fernando traça bem o perfil não só seu, mas discutível em relação aos poetas.
O poeta é um fingidor

finge tão completamente

que chega a fingir que é dor

a dor que deveras sente

Quatro pequenos versos que transmitem a essência do artista. Versos que dariam verdadeiros compêndios sobre o que é a poesia, os sentimentos do poeta, questões que não me cabem aqui aprofundar.

Conforme o crítico Frederico Barbosa, Fernando Pessoa foi : “ o enigma em pessoa”. Qual seria o rela Fernando ou seus heterônimos... O que existe por trás do homem Fernando Pessoa, seus heterônimos, sua vida aparentemente pacata?... um mistério que a Literatura deve preservar.Talvez seja este o sentido de sua obra.


Conforme os historiadores, as comemorações das festas juninas precedem o nascimento de Cristo.Depois, durante muito tempo os católicos passaram a associar esta celebração ao aniversário de São João, no dia 24 de junho, mais tarde, os festejos incluíram os dias 13, de Santo Antônio e dia 29, de São Pedro. Foi trazida para o Brasil pelos portugueses, durante o período colonial.É dia de festa junina. Os apresentadores da quadrilha se reúnem. Primeiro, a quadrilha das crianças, que dançam ao som de “(...) olha a chuva, a ponte quebrou, é mentira...”. Algumas, bem pequenininhas, cabam às vezes perdendo seu par, mas rapidamente se uenem, fato que torna a dança ainda mais terna. A noivinha segue elegante e sorridente, ao lado do noivinho tímido, caprichosamente enfeitado com um bigode de carvão.
Depois é a vez dos adultos, que em perfeita harmonia corporal, metidos a caipiras,incita o público a entrar na roda. “A fogueira está queimando, o balão está subindo...” insiste a música do acervo popular, mas, sem balões, para evitar acidentes, sabemos. Com o final das apresentações, todos se voltam às barraquinhas,decoradas com bandeirinhas coloridas, onde se encontra deliciosos quitudes, comidas típicas da festa, bebidas quentes e pescaria para as crianças.
A noite fria passa despercebida, com o caloroso forró, além de contar com a fogueira. O céu, límpido, sem nenhuma nuvem, só enfeitado com as estrelas, tornando o clima ainda mais propício, com as bênçãos de Santo Antônio, São João e São Pedro.

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Há muito se tem procurado definir o conceito de felicidade. Para os poetas, o momento epifânico da criação da poesia é o ápice da felicidade.Outros se sentem felizes ao adquirir cada vez mais bem materiais(felicidade momentânea , convenhamos). Cientistas não param de inventar pílulas milagrosas para estimular a tal felicidade, haja Prozac espalhado pelo mundo!

Mas quero hoje relatar uma cena que vi o verdadeiro conceito de felicidade. Vamos lá. Ritinha é uma menina meio russinha, com leves sardinhas na face e cabelo amarelado, um verdadeiro pixain. Deve ter por volta de nove, dez anos. Sempre me encontro com ela pelas ruas, mora à certa distância de casa, porém sempre nos esbarramos. Sei que tem problemas familiares, não cabendo aqui relatar. Além disso, não consegue acompanhar o ritmo de sua série escolar.
O fato é que devido a circunstâncias,soube que a menina é dada a responder com verdadeiros palavrões a qualquer um que pratique o ato de insultá-la. Acontece que mesmo com toda esta proeza revolta que a afasta dos amiguinhos, confesso que vou com a cara da criança, que andou até me pedindo algumas aulas particulares, prometi que ia cumprir com o gesto educacional, mas até hoje ainda não defini horário para ensiná-la, fato que cobro de mim neste instante.A realidade é que sempre encontro com a menina pelos caminhos , e me pede alguma coisa: uma bala ou algo qualquer.Noto que tem uma imaginação forte, conta histórias mirabolantes, talvez devido a certa carência.Acabou no final das contas que, desde o início, trocando monólogos, acabei depois me acostumando com Ritinha, e sempre que some, procuro saber informações a respeito.

Pois bem, dias destes, encontrei com a garota, com um leve batom na boca, estava bem mais arrumadinha do que de costume, e detalhe,havia feito chapinha no seu cabelo.Com uma franja enorme, cabelo provisoriamente liso, fazia questão de balançá-lo na certeza de que todos estavam vendo seu novo visual.Ciente de que esperava um comentário meu , fiz de desentendida. A danadinha, com as mãos no cabelo, logo veio perguntando se eu tinha algumas balas, pois deve saber que sempre costumo carregar em minhas bolsas. Não tinha balas. Muito educada comigo, agradeceu e começou a falar sobre sua sala de aula, um pretexto para dar tempo de elogiar seu novo visual. Vendo que tinha cessado todos seus argumentos para prender meu tempo, na esperança do elogio, desarmo então. Disse que seu cabelo estava diferente, a franja estava maior do que a minha, elogios que a pueril Ritinha esperava ouvir.Após o episódio, ela sai balançando novamente o cabelo, feliz.Sem mais a contar! “Felicidade são horinhas de descuido” como já dizia Guimarães Rosa.

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Quaresma

Tempo de Quaresma. Cidade do interior. Há vários  "causos" de assombração. E não duvide não. Eu e minha amiga Carina, e outro colega que era de minha sala na época, somos testemunhas vivas dos fatos sobrenaturais, mas isto fica para outra história.

Ah, os causos, há vários que escutei em relação ao meu bairro e proximidades. Histórias que me delicio e arrepio ao ouvir. Relato os que me são próximos os que povoaram minha infância.

Começo pela “lora” da caixa d`água.A caixa d`água do bairro Triângulo, que antigamente abastecia os trens da época da vaca gorda. E depois, desativada, fez a alegria das lavadeiras, donas de casa com o olhar sereno e prosa alegre que pegavam roupas das madames e dos militares da Escola de Sargentos das Armas para lavar, uma renda extra-marido, enquanto os filhos se divertiam no cano de ferro liso da caixa, servindo como escorregador.

Caixa d`água. Dizem que ali na época da Quaresma há uma loira no local, que assusta os transeuntes, dizem os mais velhos que ela começa a crescer, ficando maior do que a própria caixa d´água. Isso depois da meia noite, óbvio. Os fantasmas antes dormem. Moça da caixa d`água, o que terá acontecido com você?Será que antes de seres fantasma, morastes humanamente entre as pessoas?

  Pegando a caixa d`água e descendo reta a linha do trem, há o bairro Atalaia, onde hoje residem os militares da ESSA. O bairro Triângulo antes era separado do Atalaia por uma porteira. Dizem que as pessoas, antigamente, que sofriam de tuberculose, eram isolados num canto, e morriam por ali mesmo. Sei de relatos fantásticos desse tipo no Atalaia. Falam também os antigos, que o local, outrora frequentado por coronéis, foi palco de histórias tristes de escravos, que foram judiados pelos patrões, sobretudo, crianças que eram castigadas. De vez em quando, sê ouve o lamuriar das crianças. Contaram-me que já apareceu um padre pela redondeza, vestido de preto, que sentou na garupa de bicicleta de um cidadão e depois desapareceu. Coisas do outro mundo...

Próximo à extinta porteira, atravessando a linha há uma entrada para para a matinha, tornando o cenário ainda mais propício às histórias. Uma amiga de nossa família, exímia contadora de casos, disse que já foi perseguida pela luzinha amarela, o que parece ser um compadre e uma comadre que se amavam loucamente, e não ganharam a salvação. Suas caveiras andam por ai, pareadas, batendo uma na outra, provocando faíscas e parecendo uma bola de fogo, e saem assim, perdidas na eternidade, por se amarem.
Sem falar no lobisomem, quem será o amaldiçoado?Cada um tem sua aposta, e as galinhas encontradas mortas na Quaresma são vítimas do sanguinário animal, haja bala de prata.

São tantas histórias que ouvi tantas narrativas além Três Corações, pras bandas de Minas, que dariam um verdadeiro ensaio sobre o tema. Mas fico pensando: tudo mudou. Hoje o que nos assusta é a violência,  Chegar tarde tempos atrás, significava topar com uma assombração. Hoje, corre-se o risco de topar com um ser inescrupuloso, e detalhe, nem precisa ser Quaresma. Ai, que saudade do tempo de outrora!

imagem:google

Hoje não estou inspirada para escrever. Procuro temas banais, procuro em volta, o sol lá fora, podia escrever sobre um dia ensolarado. Observo pessoas em minha rua; são apenas visões das quais não estou conseguindo extrair nada.

Eu que normalmente consigo extrair beleza em uma sedentária pedra, estou bloqueada. E olha que não escrevo obrigatoriamente, fico pensando nos colunistas diárias quando estes momentos catárticos surgem em suas mentes, causando transtornos profissionais.

Sento em frente ao computador, olho os objetos ao redor: uma imagem de Nossa Senhora Desatadora dos Nós, um porta-retrato com uma foto minha junto com minha sobrinha, uma pintura de uma bela paisagem num azulejo, que ganhei de alguém especial. Tenho saudades. Incansável nostalgia... podia descrever sobre a saudade, mas só a sinto, não consigo passar para o papel neste momento.Papéis espalhados ao meu redor, rascunhos, meu grampeador, meus CDS preferidos, e outros tantos objetos ao meu redor, tema algum.Quisera nesta hora ter a visão dos parnasianos, que sabiam como ninguém cultuar a forma dos objetos.

Pego algumas fotos para ver, quem sabe eu tenha alguma reminiscência. Nada. Olho para a janela, um pequenino beija-flor pousa ariscamente sobre uma planta em um vaso. Nem a suavidade da avezinha consegue me arrancar um leve suspiro de inspiração.
Leio notícias aqui na internet, notícias dão ótimas intertextualizações. Perda de tempo. Parece os dias em que estou tentando fugir da fatídica insônia. Um incômodo que me deixa estressada. Cadê as palavras?


Sabe de uma coisa? Vou dar uma volta, hoje começa o carnaval  , daqui a pouco a cidade está em festa, talvez eu me deslumbre com uma cena de um casal fantasiado de Pierrô e Colombina, devolvendo-me a epifania do instante crepuscular. Sendo assim, ponto final.

* Texto escrito no Carnaval passado, mas serve para este instante...a diferença é que hoje está chovendo. feliz Carnaval a todos!





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Uma dos últimos textos que li do autor Moacyr Scliar foi uma crônica, da qual me esqueci o nome, onde ele, fazendo caminhada, é ultrapassado por uma senhora bem mais velha que ele;com refinado humor, o escritor conta a história.Hoje a velhinha não mais o ultrapassará em sua caminhada...
Pois bem, faleceu hoje este grande escritor, membro da Academia Brasileira de Letras e médico. Para homenageá-lo, deixo aqui uma crônica(meu gênero favorito), de sua autoria. O médico e cronista, juntos.




Tupi or not tupi: um dilema do médico brasileiro
O médico suíço Philippus Aureolus Theophrastus Bombastus Von Hohenheim – que viveu entre 1493-1541 aproximadamente – autodenominado Paracelso (sem muita modéstia, ele se punha ao lado de Celso, o grande médico da antigüidade romana) revolucionou a medicina ao introduzir o mercúrio no tratamento da sífilis, doença até então epidêmica. Com isso praticamente deu origem à quimioterapia baseada em drogas específicas para enfermidades. Mas não só na terapêutica Paracelso inovou. Professor de medicina e autor de várias obras, falava aos alunos e escrevia em alemão ainda que à época o idioma obrigatório da profissão fosse o latim – que Paracelso conhecia bem –, mas que recusava por causa de seu espírito contestador. Ou seja, bombástico ele era mesmo, fazendo jus ao nome.
Por que os médicos utilizavam o latim? Pela mesma razão que nobres e prelados o faziam: o poder que representava. Latim havia sido o idioma do Império Romano e, como diz o provérbio, quem foi rei nunca perde a majestade: o latim mantinha, apesar de tudo, a imagem do poder. Com o tempo, outros impérios foram surgindo. Napoleão estendeu o domínio da França à boa parte do mundo e com isso deu uma dimensão global ao francês, o que, diga-se de passagem, apoiou-se numa admirável cultura, literária e artística sobretudo, mas também médica. A partir de fins do século 19 e graças a nomes como Pasteur, Claude Bernard e Charcot, a medicina francesa pontificava, coisa da qual veteranos como eu podem dar testemunho. Estudávamos anatomia no Testut-Latarjet, famoso tratado (havia duas versões, uma completa, o “Testuzão”e outra abreviada, o “Testuzinho”). Eu tinha um professor que era capaz de dar uma aula em francês, e fazia isso, ainda que poucos alunos entendessem o que ele falava. Frases do tipo Dans la médécine como dans l’amour, ni jamais, ni toujours (na medicina como no amor, nem nunca, nem sempre), produto do racionalismo gaulês, eram freqüentemente usadas nas discussões de caso, sem falar nas palavras de origem francesa, como gripe e torcicolo.
E aí a Inglaterra conquista o mundo, construindo um império sobre o qual o sol nunca se punha, e, depois da Inglaterra, os Estados Unidos assumem a liderança global. Resultado: o inglês desloca o francês, como este havia deslocado o latim. A quantidade de palavras inglesas que fazem parte do nosso cotidiano é enorme, e às vezes nós as usamos até de forma inconsciente. Na linguagem habitual o inglês está até substituindo o português: as vitrines (aliás, esta palavra é um galicismo) não anunciam liquidação, mas sim sale; e não existe mais entrega em domicílio, existe delivery. Quando chegamos à medicina, então, o inglês é a regra. Não só são usados termos neste idioma, como incorporamos a construção de frases ao traduzi-las do inglês. Dizemos: “É demonstrado no quadro que...”, em lugar de “O quadro demonstra que...”. Uma doença que no passado era grave, agora passa a ser “severa”, e assim por diante.
Pergunta: o que fazer? Relax and enjoy? Ou tomar alguma providência? O deputado Aldo Rebelo é autor de um projeto de lei proibindo estrangeirismos. Outros projetos multam severamente (ops!) proprietários de lugares onde letreiros e cartazes contenham palavras em inglês. Será que vai funcionar? Em alguns casos cabe a dúvida: vamos mudar de mouse para “rato”? Será que é uma vantagem? Por outro lado, não podemos esquecer que os idiomas são dinâmicos e que a incorporação de vocábulos ocorre, sobretudo num mundo globalizado como é o nosso. Tomemos o caso do Brasil: qual seria, afinal, o nosso idioma original? O tupi-guarani, como queria o Policarpo Quaresma, aquele personagem de Lima Barreto? O português? Mas o português não é, afinal, uma variante do latim? Ninguém formulou o dilema melhor que Oswald de Andrade em seu “Manifesto antropofágico” de 1928: “Tupi or not tupi, that is the question”. E o próprio título do manifesto sugere um caminho: a antropofagia é um meio, ainda que inusitado, de incorporar o estranho. Abrasileirar palavras é torná-las parte de nossa realidade. Macaquear os outros, ao contrário, é sinal de subserviência. Num momento em que o Brasil, e a medicina brasileira, lutam para encontrar seus caminhos, esta é uma coisa que os médicos devem ter em mente.

imagem:google.

Guimarães Rosa e a margem do rio

Relendo um livro de Guimarães Rosa me deparei novamente com o esplêndido conto: A Terceira margem do Rio,que nos fala sobre um homem, pai de família, que manda fazer uma canoa muito resistente. Depois, do nada, abandona tudo para viver nesta canoa, num rio próximo a sua casa. Sua mulher, numa construção digna do mestre mineiro ainda o interpele: "Cê vai, ocê fique, você nunca volte!” (construção belíssima esta, deleito linguístico que traduz o mais puro mineirês).O fato é que o homem nunca mais voltou, e nunca mais falou com ninguém; o narrador é seu filho, personagem que ama o pai, mesmo ele feito este ato sem resposta.

O homem fica ali por anos; suposições são feitas para a maldita direção que tomara o pobre senhor, tido outrora como respeitável pai de família. Tudo o que sabem é que se o pobre desce da canoa, é só para fazer suas obrigações primitivas, mesmo assim, longe de todos. Do contrário, sua vida agora se baseia na canoa, que virou seu tugúrio.Seus filhos se casam e mudam do local, a esposa segue com a filha para outro lugar, já envelhecida e certamente ainda tristonha com aquele que fora pai de seus filhos. Somente o filho narrador permanece próximo ao pai, sentindo certa sensação de culpa e no dever de olhar para o indecifrável pai, que não atende aos apelos de ninguém.

Um dia, o filho perturbado por ver o pai naquela situação, decide de ímpeto, oferecer para o genitor que ficasse em seu lugar. "Pai, o senhor está velho, já fez o seu tanto... Agora, o senhor vem, não carece mais... O senhor vem, e eu, agora mesmo, quando que seja, a ambas vontades, eu tomo o seu lugar, do senhor, na canoa!..."

Acontece que, numa reação inesperada pelo nosso narrador, o pai, que dantes não respondia com nenhum gesto, começa a acenar para o filho, que foge assustadoramente. Certamente medo pela aceitação do pai, medo de ter de levar aquela vida, de trocar de lugar com o já cansado pai. Depois ninguém mais teve noticia daquele homem...O filho fica doente e lamurioso até o fim de seus dias.

Observo as pessoas. A margem da vida... quantas vezes nos sentimos incautos, tomando atitudes erradas diante de determinadas situações; será que o pai não sentia falta da vida que levava, e se crucificou por nada? O que pensou o filho, ao dizer aquelas palavras, abnegando também sua existência?Talvez se não tivesse oferecido para ficar no lugar do pai, não ficaria com culpa, culpa de algo que sabia que não teria condições de cumprir.

Ficar na posição do pai ,que certamente cansado por sua atitude devaneia, resolve aceitar a atitude do filho, ou na posição do filho, que se acovardou antes suas próprias palavras? Freud já nos orientava sobre a ação por impulsos, mas temos o direito de ir, de ficar, de agir... O filho poderia ter pensado em sua ação, deixado as coisas no lugar.Teria assim ficado livre de sua consciência?..... É uma atitude complexa, vendo que tudo se reflete.

Trago para várias situações do cotidiano. Uma dose de ousadia faz bem, o excesso pode acumular resultados insatisfatórios. A melhor alternativa antes de tudo é saber direcionar nossos impulsos, a pitada da galhardia em terreno minado, aliado à sensatez, para evitarmos futuros problemas.Complicado, mas o viver pede isto.

imagem:google

O caminho da Escola

Hoje estava ajudando minha sobrinha Sofia a arrumar seu material para início das aulas amanhã. Já vai para a 5ª série do Ensino Fundamental...É, os anos passam, ainda a vejo bebê com sua face rosadinha no hospital quando nasceu.Entre seus brinquedos e cadernos, vamos nós arrumando seus materiais.

Brinquedos. Sofia está com 10 anos, é uma criança que ama brincar, conserva um lado espirituoso nato. Hoje acordou tarde, depois foi ao colégio ver sua matrícula, chegou brincou com seu inseparável cãozinho Toquinho, foi andar de bicicleta, pulou, dançou entre outras coisas. Talvez sabendo que daqui pra frente irá adquirir mais responsabilidade. Responsabilidade com o aumentar das disciplinas, responsabilidade de conciliar horário, responsabilidade de que está crescendo. As bonecas estarão ali em seu canto, tomara que sim, tenha um tempinho para elas.

Responsabilidade de crescer. Começa aos poucos a sair de seu casulo tão bem protegido, penso. Daqui a pouco entrará na adolescência. Período de transição, muito bem advertida em versículos bíblicos, muito bem explicado de forma implícita na área literária no conto Chapeuzinho Vermelho. Pela estrada afora, segue agora para visitar a vovozinha. Seu caminho deve ser sozinho, dela, contando com ajuda de pessoas queridas. Se o caminho é repleto de lobos, lobos que a vida oferece através de várias faces, vale a pena entrar, o caminho é cheio de armadilhas, mas o bosque também é belo, com o verde da esperança e com a transparência das cascatas. Usando as ferramentas da verdade, da fé e do amor, não se desvinculará do caminho e não se distrairá com as flores, e sim, as plantará.

Retomo a escola. Sofia é uma menina estudiosa.Se existe a escola no seu sentido denotativo, a escola do saber, onde nas palavras honrosas do mestre Rubem Alves: não há coisa mais nobre que educar -,existe também a escola da vida. Se bem que ambas devem andar de mãos dadas. Sofia está trajando seu caminho. Sofia quer estudar, quer ser veterinária, tem um amor indizível por animais. Poderá mudar de idéia, ou não. Bagunceiramente saudável, é carinhosa com todos. Fala de namoradinhos, é uma menina romântica. Que conserve sempre a inocência em seu coração. Entusiasmada, galga pela vida com um destino a cumprir.Que Deus a abençoe!

De volta ao leito

O rio Verde finalmente está voltando ao seu leito, depois de muita apreensão causada na população. Retorna, lentamente, assim como lentamente veio subindo; subiu por cinco dias, depois, no último dia, ficou catártico, expurgando sobre seus feitos.Depois desceu, talvez volte o ano que vem, ou nos próximos anos, talvez não; dependerá de como serão seus desígnios. Desejo que ele fique ali, quietinho, a atravessar majestoso a cidade de Três Corações. Foi e ainda é um rio bonito, suas águas em tom esverdeado já fez alegria dos meus tempos pueris. Lembro-me da famosa prainha, espaço de areia branca e maciça, onde as pessoas nadavam ,as crianças brincavam, andavam de canoa...Depois veio o esgoto,a prainha foi se dissolvendo e, sumiu, para tristeza de todos nós. Providências foram tomadas em relação às redes de esgotos, mas já era tarde, o rio chorou por perder um pedaço seu, sentido-se triste pelos momentos felizes outrora sobre seu leito, na lindas tardes de verão.




Hoje, o rio continua ali, pescadores ainda usufruem de seus abundantes peixes, mas ficou uma parte da história ali, parte reminiscente, numa travessia do bucólico para o presente, numa rápida metafísica, num piscar de olhos. Assim como se foram as brincadeiras de antanho: o jogo de petecas, o pular dos pneus, o vôlei provinciano, tudo se esvairiu.Entro aqui com um parênteses, tive minha infância na década de 80, foi um período transitório, na minha concepção para os anos 90, onde houve uma grande revolução em termos da atual modernidade.


O rio Verde, momentos interiores, pedaços que se fragmentaram com o tempo. Se hoje não existe mais nossa famosa prainha, sinto minha alma ainda interiorana, incorruptível. Momentos indeléveis em meu coração, onde me refugio quando me sinto perdida neste Admirável Mundo Novo.
Volte para o seu leito, suas grandes e belíssimas pedras ainda serve de apoio para lhe comtemplar debaixo da ponte de ferro; ainda tem seus cantinhos reservados aos pescadores.Continua seguindo sua trajetória.










É Janeiro, chove como todos os Janeiros chovem; apesar de gostar de chuva, estou entediada, quero sair, andar, jogar pensamento fora, como diz um cronista que me fugiu o nome agora, observar pessoas, esvaziar a mente para criar histórias. Chove, o Rio Verde sobe aqui em Três Corações, da minha janela na  frente de casa o vejo, vem subindo devagar, dando chance as pessoas de retirarem seus pertences.Sobe cabisbaixo, com vergonha deter de cumprir seu destino.Há maiores catástrofes neste Brasil afora. O Rio Verde... ficava lá embaixo, da janela   dava pra ver somente sua margem, porém sabia que ele estava ali,taciturno em seu leito.Faz dois dias que precisou sair, talvez não por culpa dele, mas dos desmatamentos, da poluição. Já espantou alguns de suas  casas, queira Deus que ele volte logo a correr tranquilamente com suas águas, chega de subir. Mas não posso ficar pensando no rio subindo.

Vou arrumar minhas gavetas, meus papéis, minhas roupas, que é o que faço quando quero desviar meus pensamentos, já escrevi sobre isto antes; vejo que não visto mais algumas roupas, coloco-as em uma sacola, alguém precisará delas mais do que eu, por que as pessoas precisam de tantas roupas? Reflito...Parto agora para as gavetas, meus papéis , meus pequenos tesouros, minhas fotos, vou acumulando papéis. Resolvo tirar, jogar um pouco fora, observo que sou apegada em papéis, mas é porque em recortes vou construindo minha história. O processo de limpeza é fantástico, pelo menos em mim, vou pensando na vida, acho que é assim com todos. Pessoas, pessoas que de certa forma não ficaram em minha vida, não entendo, portanto, não quero entender; outras que passaram, outras que nunca me marcaram...Ah, e as pessoas que permanecem , estas devo zelar, cuidar, manter, cativar...Sei que as vezes sou osso duro de roer, minha amiga disse que as pessoas ou me amam ou me detestam devido a minha teimosia, mas nasci assim, mudar é difícil, mas estou tentando, esta mesma amiga diz que o que me salva é a minha fidelidade as pessoas. Ponto de consolo para mim. Defendo-me com Clarice Lispector:
Sou como você me vê.
Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania,
Depende de quando e como você me vê passar.
Mas Clarice era Clarice, sem comentários.Não entendo porque resolvi escrever sobre isto, efeito da chuva, marasmo de ficar em casa, agonia por ver o rio subir? Uma forma de desabafo. Não sei...A chuva continua.

Madrugada adentro, a chuva para, entre caminhões do Exército tirando os pertences das pessoas nos cantos da cidade, não consigo dormir. Abro a janela, uma única estrela brilha, um outro dia está a nascer.Rio verde, volte ao seu leito.

O caminho das Pastorinhas

Conforme os historiadores, a tradição das Pastorinhas vem do século XVI, e é uma herança portuguesa introduzida inicialmente pelos colonizadores do Nordeste brasileiro. Podem ser consideradas como expressões teatrais, relacionadas às mensagens bíblicas que falam sobre o nascimento de Jesus. Eram coordenadas pelas igrejas católicas, e ainda hoje se mantém em algumas cidades, principalmente do interior. Com toda sua alegria, podem se destacar nas pastorinhas grupos existentes na época de Jesus, como as ciganas, os camponeses, os estrangeiros. Histórias bíblicas com inserção do popular. Hoje, as Pastorinhas são mantidas por comunidades e bairros, com apoio da Igreja Católica.



Vamos pastorinhas, vamos

Por este caminho além

Visitar menino Deus

Que nasceu lá em Belém.

O grupo das pastorinhas chegam em meu bairro, alegres e cantantes.A coordenadora os  colocam em fila, Vão seguindo de casa em casa,levando  Maria e José, o menino Jesus em seus braços, entoando cânticos populares da própria Pastorinha e cantos católicos.As meninas estão todas com vestidos vermelhos, três meninos vestidos de Gaspar, Baltazar e Belchior( (ou Melchior); os outros componentes seguem atrás, tocando os instrumentos indispensáveis para apresentação, como cavaquinho, bumbo entre outros.

Já falei anteriormente sobre o canto das pastorinhas, belo e mágico, em meu livro Riquezas do Interior, porém, para defini-lo, só escutando; assim como os cânticos da Folia de Reis. A tradição presente no sangue deste Brasil imenso.

Batendo de porta em porta, algumas famílias  pedem que cantem ; outros recebem somente a imagem do menino Deus.Quando na casa se encontra um presépio,todos entram e se ajoelham diante dele,depois ficam ajoelhados  somente os personagens de Jesus e Maria, enquanto as pastoras cantam,   batendo seus pauzinhos(simbolizando os cajados, na maioria são feitos de cabo de vassouras, enfeitados- tudo é singelo, relembrando que o rei dos reis nasceu numa humilde choupana) em compasso, e falando seus versos em adoração. O cortejo anda o dia inteiro, parando para alimentaçãona casa de  famílias que se oferecem previamente , continuando assim sua jornada. Se despedem com o verso do cântico:




Adeuzinho até a volta


Até o ano que vem


Vocês ficam aí com Deus


Ai, ai meu Deus

    Nós vamos com Deus também.

As pastorinhas encerram hoje, dia 6 de Janeiro sua caminhada, assim como os três reis magos.Até a volta Pastorinhas, levando nossa cultura popular e a fé dos grandes corações.


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PRIMEIRO LIVRO DE CRÔNICAS, INTITULADO “RIQUEZAS DO INTERIOR” DA ESCRITORA ELENISE EVARISTO. Este projeto visa divulgar novos nomes e publicações relacionados a Cultura da Cidade de Três Corações, através do lançamento do livro de crônicas “Riquezas do Interior”, da iniciante escritora Elenise Evaristo, contemporânea, mineira, dotada de sensibilidade e cultura e que com estes adjetivos, retrata na sua primeira publicação, embora já tenha sido apresentada ao mundo literário, através da publicação de um artigo, em livro lançado em 2008, intitulado: Quem conta um Conto de Fadas... Uma introdução aos contos de fadas dos Org. Geysa Silva e Luiz Fernando Matos Rocha. INTRODUÇÃO O Estado de Minas famoso por reunir marcas de um passado de riquezas Patrimoniais e Arquitetônicas, trazidas pelo Barroco e Rococó produzidos no século 18, e que garantiu que parte das cidades históricas adquirissem títulos de patrimônio da humanidade por parte dos órgãos responsáveis, possui ainda mais requinte quando se trata do legado da Cultura popular deixada pelos povos mais antigos. A cultura mineira tradicional fértil e diversificada, atravessa tempos e mostra para o Brasil a importância de se abrasileirar ainda mais as nossas tradições !

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Eu,por mim mesma: Virginiana, Terra, Melancólica. Tímida, Dedicada, Ciumenta, Muito Amor: Deus, família, alguém que sabe quem, amigos, Minas Gerais,e Literatura. Impulsiva, Sensível, Aspirante à escritora. Prazer: pôr-do-sol, cheiro de café coado de preferencia no coador de pano, cheiro de terra molhada, cheiro de curral, brincar com meus sobrinhos, comer bolinhos de chuva, ouvir música, assistir filmes, amo momentos simples e extasiantes Amo cozinhar. Adoro Conversar com pessoas e me encontrar nos meus momentos de solidão.

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