AS RIQUEZAS DO INTERIOR

Riquezas do Interior, o livro de estréia da escritora mineira Elenise Evaristo, abre caminhos no cenário literário brasileiro com a telúrica brejeirice de Minas Gerais. É em horinhas de descuido, como diria o também mineiro Guimarães Rosa, que Elenise capta momentos do cotidiano das cidades do interior e, com uma linguagem leve e acessível, convida o leitor a conhecer as riquezas de suas lembranças e de sua terra. Amalgamado ao seu estilo, Elenise utiliza seu repertório de leitora que vai de Drummond a Proust, passando por Machado de Assis e Rachel de Queiroz, para dar forma a sua escrita. Nas 27 crônicas que compõem o livro, a escritora traz à tona a imagem dos contadores de “causos”, a alegria das festas tradicionais, a inata religiosidade do povo de Minas, a singularidade da cultura popular das Gerais e reverencia personalidades marcantes e importantes por sua “mineirice”, como Fernando Sabino e Juscelino Kubitschek. Sob o olhar sensível e aguçado da autora, são resgatados valores humanos que, ao contrário do que se pensa, não ficaram perdidos no tempo, mas adormecidos no íntimo de cada um. Riquezas do Interior é um convite para que esses valores sejam despertados e para que possam ser postos em prática o quanto antes. Um mergulho no interior de cada indivíduo. Uma percepção das riquezas do ser humano. É o que Elenise Evaristo desafia seu leitor a fazer. * Texto escrito por Ana Carla Nunes e Beatriz Badim de Campos


Quando eu era criança, tive um caderno de recordações, destes onde as pessoas colocam uma frase e assinam embaixo. O caderno era um hábito saudável e poético da época. Hoje, infelizmente as crianças e adolescentes não o fazem mais, preferem o e-mail, o orkut, MSN, tantos nomes e outros meios tecnológicos que vão surgindo para registrar seus momentos junto às pessoas queridas. Não que eu seja contra, mas, ah, o caderno era uma forma de se ter à mão os sentimentos revelados em relação ao seu dono. E no meu ponto de vista, tudo o que é feito, a punho, é de grande valor sentimental.
Deixando de lado esse sentimentalismo piegas, falemos de meu caderno. No início do ano de 2.000, eu já adulta, preservava a sete chaves meu caderno. Aconteceu que veio uma enchente avassaladora, sobre Três Corações, não foi registrada nenhuma morte, mas fez grandes estragos. O Rio Verde se exaltou de tal forma, que minha casa foi atingida. Lembro-me da tristeza dos foliões, que não conseguiram levar adiante a bandeira dos Santos Reis até o dia 06 de janeiro daquele ano.
A agitação do Corpo de Bombeiros, o esforço dos militares para ajudar os moradores com seus móveis, seus animais, seus bens mais queridos. Foi uma correria. A chuva durou uns cinco dias. Dizem os mais velhos, que essa enchente acontece por estes lados de 40 em 40 anos; bom, não sei se estarei viva na próxima.

O fato é que as águas entraram vagarosamente em minha casa, como que pedindo licença, e dando tempo da gente sair, só que não imaginávamos que o estrago ia ser tanto, deixamos algumas coisas no sótão de casa, que fica em cima da laje. Retiramos os imóveis, porém, colocamos pequenos acessórios como discos, CDS, livros, quadros, roupas neste sótão. Ledo engano! As águas cobriram a casa inteira, triunfante e onipotente. Três Corações ficou literalmente ilhada. O acesso só mesmo pelo trevo entre Campanha, a entrada pelo Jardim Paraíso, praticamente impossível.
As águas subiram lentamente, e lentamente voltaram ao seu leito. Minha casa ficou repleta de barro, algumas paredes caíram. Mas não evitei minha concepção poética, ao menos participei de uma grande enchente.
Juntar os cacos, voltar pra casa. Lá estava meu velho caderno, sujo, impossível de ser guardado. Partiu meu coração, pedaços molhados de minha infância. Meu pai já falecido havia deixado várias mensagens no caderno. Fiz questão de pegar estas folhas, sujas, tirei a terra que ficara por cima, coloquei no sol para secar, ficou inabilitado o caderno, tive de jogar fora, mas guardei aquelas páginas amarelas escritas com tanto carinho pelo meu pai. As páginas amareladas e feias, que guardo com carinho e cuidado, um pedaço do meu pai, onde está presente um verso do poema de Olavo Bilac: Velhas Árvores.
Meu pai, sempre calmo, e enérgico quando precisava, criou seus 10 filhos com muito amor. Foi telegrafista da velha Rede Ferroviária nos seus tempos áureos. Falava baixinho. Todos os dias sentava para anotar algo, sim, ele também adorava sentar em uma mesa para escrever cartas aos parentes, fazer suas pequenas anotações. Transcrevia frases em seu também caderninho. Além de comentários sobre as Reuniões da Sociedade de São Vicente de Paula, onde se dedicava com afinco. Eu admirava ver meu pai ali, escrevendo ou lendo. Acho que me ensinou muito com seus gestos singelos.

O Poema de Olavo Bilac retiro aqui alguns versos:


Não choremos amigo, a mocidade!
Envelheçamos rindo. Envelheçamos
Como as Arvores fortes envelhecem,
Na glória da alegria e da bondade
Agasalhando os pássaros nos ramos
Dando sombra e consolo aos que padecem.
Envelheçamos meu pai, com dignidade, como o senhor o fez!

Historinha de assombração

Imagem: http://fadalindinha.fateback.com/noite%20lua2.jpg


Minas Gerais sempre foi dotada de certa religiosidade e feição ao sobrenatural. Não são raros os relatos de aparições contados e recontados, o que frisa mesmo uma riqueza tradição oral dos feitos do além. Roberto Drummond relatou bem em seu livro “O Cheiro de Deus” sobre estas aparições inusitadas que são assustadoras, e contadas com convencido orgulho. No livro, numa estranha cidade de Minas, onde tudo pode acontecer, a personagem principal, vó Micaela, é uma brava senhora, que vive em guerra com um coronel; a velha, cega, que vive com um rifle na mão, sente os acontecimentos pelo olfato, sem falar que todos seus descendentes têm sobrenomes de uísque. Neste ínterim, o autor relata de forma humorada e romanceada a história de amor entre um lobisomem e uma mortal, contado com tanta e leveza na colocação das palavras, fina maestria que dá vontade de chegar ao final do livro logo, pra saber quem é o tal do bicho, e pelo enredo que nos envolve, contando de forma sutil os costumes enraizados dos mineiros.
Já circulei de madrugada pelas ruas históricas de Ouro Preto e Mariana, e confesso, entre os casarios e as igrejas fechadas, se sente que a qualquer momento poderá se deparar com um ilustre fantasma do século XVII, é misterioso, e curioso ao mesmo tempo.
Dias destes, vim num programa televisivo, uma entrevista de um cantor regional, ele já com quase 70 anos, e como todo conterrâneo, de fala mansa, afirmou com um estranho brilho nos olhos que já tinha visto um lobisomem quando criança... São histórias incríveis, que não canso de ouvir, povoaram minha infância , e ainda me deleito ao ouvir as narrativas dos mais velhos, que juram de pés juntos os acontecimentos que viveram ou foram relatados por seus pais.
Pois bem, minha historinha recente, aconteceu com três personagens. Quaresma, pra variar. Os antigos ainda dizem que o melhor é ficar em casa, sair depois da meia noite é perigoso, assim como é pecado fazer certas coisas na sexta-feira Santa, que é dia morto, de oração e meditação.
Meia noite, hora das assombrações. Pois estes três aventureiros, não respeitaram tais orientações, passando por cima das crendices. Foram em um baile, um forró com uma incansável sanfona, se divertiram, dançara, beberam, paqueraram, sem se preocupar com a senhora Hora, e a noite da Quaresma esperando lá fora. Pois bem, no fim do forró, quando já não havia mais nada o que se fazer, o baile já terminado, os beijos já dados, a música dançada, os moços resolvem finalmente ir para casa, mas antes ainda pensam em parar em algum outro lugar, mas não havia mais estabelecimento ao redor aberto; insatisfeitos, só restou voltarem pra casa.
No bairro onde moram, cortado pelo Rio Verde, há um lugar que é um campo aberto, eles, farristas, começam a dar gritos, fazer barulhos no silêncio contemplativo da madrugada. Quando de repente, se ouve um relincho próximo ao tal campo, o que tinham de corajosos, esmorece, e saem correndo esquecendo mesmo da bravura que alguns copos de cervejas que haviam lhe dado. O caso se espalhou criando risos e comentários de alguns críticos em contraposição dos crédulos. O que seria o tal relincho?Não sei... Quanto a mim, na melhor das hipóteses, como boa mineira, prefiro esconjurar.

Outono



Começou ontem o delicioso outono. Hoje já está um dia meio friozinho, com alguns pingos de chuva. Nesta época do ano, antecedendo um ou dois dias ao Outono, ou mesmo no dia 21, ocorre o Equinócio, movimento em que o sol passa pelo equador, fazendo os dia com 12 horas de duração.Segundo os astrônomos, este ano o fenômeno ocorreu ontem, aproximadamente entre as 17 horas e 32 minutos.Porém, a data tradicional seria no dia 21 de março, o que acontecerá novamente só no ano de 2103.Mas Astronomia a parte, toquei no assunto do Equinócio porque me lembro que, quando jovem, adorava ler sobre misticismo,espiritualidade, estas coisas,lia muito Carlos Castañeda e outros, e sei que Equinócio é uma data importante para os grandes bruxos. Imaginava-os reunindo nas grandes serras de Minas Gerais: a formosa Serra da Mantiqueira, (a serra que chora, segundo uma lenda indígena, que vale a pena conferir), serra da Canastra e outros cantos propícios as artimanhas sortilégicas por aí, fazendo seus rituais... Lógico, enfeitando eu com uma boa dose de poesia e romantismo, aspirava sonhos de que seria uma bondosa bruxa, devaneios da juventude, apesar de eu ter uma aguçada intuição.




Mas volto ao Outono, época pra mim metafisicamente de recomeço, reflexão. Os ventos sopram pacíficos no raiar do dia, o céu vermelho ao entardecer inspira verdadeiros poemas. As folhas começam a amarelar; os ipês amarelos pertos de casa estão ainda mais adormecidos para acordar triunfais na Primavera. Como nesta época geralmente acontece a Semana Santa, se cria um clima ainda mais propício nas profissões da Semana, havendo o contraste da tristeza com o manto estrelado acompanhado pela radiante lua.
Outono, aconchego. Dá aquela vontade danada de ficar em casa, curtir um romance, preparar o estoque de chocolate quente, se recolher nos livros, adormecer com o tênue vento acariciando o rosto.
Se na Primavera/Verão as pessoas se tornam mais sensuais, no Outono elas se tornam pessoas mais reluzentes, como uma flor a desabrochar. Que no outono , assim como as folhas amarelas caem, e depois nascem, revigorantes,possa nosso coração se esvaziar, tornando-nos pessoas melhores.

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PRIMEIRO LIVRO DE CRÔNICAS, INTITULADO “RIQUEZAS DO INTERIOR” DA ESCRITORA ELENISE EVARISTO. Este projeto visa divulgar novos nomes e publicações relacionados a Cultura da Cidade de Três Corações, através do lançamento do livro de crônicas “Riquezas do Interior”, da iniciante escritora Elenise Evaristo, contemporânea, mineira, dotada de sensibilidade e cultura e que com estes adjetivos, retrata na sua primeira publicação, embora já tenha sido apresentada ao mundo literário, através da publicação de um artigo, em livro lançado em 2008, intitulado: Quem conta um Conto de Fadas... Uma introdução aos contos de fadas dos Org. Geysa Silva e Luiz Fernando Matos Rocha. INTRODUÇÃO O Estado de Minas famoso por reunir marcas de um passado de riquezas Patrimoniais e Arquitetônicas, trazidas pelo Barroco e Rococó produzidos no século 18, e que garantiu que parte das cidades históricas adquirissem títulos de patrimônio da humanidade por parte dos órgãos responsáveis, possui ainda mais requinte quando se trata do legado da Cultura popular deixada pelos povos mais antigos. A cultura mineira tradicional fértil e diversificada, atravessa tempos e mostra para o Brasil a importância de se abrasileirar ainda mais as nossas tradições !

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Eu,por mim mesma: Virginiana, Terra, Melancólica. Tímida, Dedicada, Ciumenta, Muito Amor: Deus, família, alguém que sabe quem, amigos, Minas Gerais,e Literatura. Impulsiva, Sensível, Aspirante à escritora. Prazer: pôr-do-sol, cheiro de café coado de preferencia no coador de pano, cheiro de terra molhada, cheiro de curral, brincar com meus sobrinhos, comer bolinhos de chuva, ouvir música, assistir filmes, amo momentos simples e extasiantes Amo cozinhar. Adoro Conversar com pessoas e me encontrar nos meus momentos de solidão.

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