AS RIQUEZAS DO INTERIOR

Riquezas do Interior, o livro de estréia da escritora mineira Elenise Evaristo, abre caminhos no cenário literário brasileiro com a telúrica brejeirice de Minas Gerais. É em horinhas de descuido, como diria o também mineiro Guimarães Rosa, que Elenise capta momentos do cotidiano das cidades do interior e, com uma linguagem leve e acessível, convida o leitor a conhecer as riquezas de suas lembranças e de sua terra. Amalgamado ao seu estilo, Elenise utiliza seu repertório de leitora que vai de Drummond a Proust, passando por Machado de Assis e Rachel de Queiroz, para dar forma a sua escrita. Nas 27 crônicas que compõem o livro, a escritora traz à tona a imagem dos contadores de “causos”, a alegria das festas tradicionais, a inata religiosidade do povo de Minas, a singularidade da cultura popular das Gerais e reverencia personalidades marcantes e importantes por sua “mineirice”, como Fernando Sabino e Juscelino Kubitschek. Sob o olhar sensível e aguçado da autora, são resgatados valores humanos que, ao contrário do que se pensa, não ficaram perdidos no tempo, mas adormecidos no íntimo de cada um. Riquezas do Interior é um convite para que esses valores sejam despertados e para que possam ser postos em prática o quanto antes. Um mergulho no interior de cada indivíduo. Uma percepção das riquezas do ser humano. É o que Elenise Evaristo desafia seu leitor a fazer. * Texto escrito por Ana Carla Nunes e Beatriz Badim de Campos

A MULHER DE 30 ANOS


A fisionomia da mulher só começa aos trinta anos.
Honoré de Balzac



Fiz 30 anos em Agosto passado. O romance escrito em 1.831 “A mulher de trinta anos” de Honoré de Balzac designou o termo balzaquiano, se referindo à mulher mais madura. A saga de Julia foi triste , típica de uma mulher da época, insaciada pela falta de emoção devido ao machismo presente.

Minha vida se divide em decênios. O primeiro, a infância que foi maravilhosa. Família grande, caçula temporã, tive os cuidados voltados para mim, dentro do que minha família podia oferecer. Tinha problemas sim, como toda família, mas estes não me atingiam. Depois, um período triste, marcado por perdas imensuráveis, a morte, fatal e impiedosa, atingiu minha família com vontade. Mas a vida continua, é aceitar o inaceitável. Depois vieram os 20 anos, meus sobrinhos nasceram, restituindo totalmente a alegria adormecida na família. Fiz minha faculdade de Letras, retomei minha juventude abruptamente interrompida. Tive o primeiro serviço sério, que me ensinou a ter responsabilidade.

Trinta anos, sou uma pessoa melhor, não digo totalmente madura, tenho resquícios ainda dos vinte e poucos anos, ainda hoje estou aprendendo. Não tive filhos, não é uma coisa que me preocupa hoje, escrevi um livro. Meus amigos me acham um pouco “fechada” a olhos alheios. Sei que visivelmente mantenho uma aparente distância das pessoas de início, antes de criar certa intimidade. Até mesmo me sinto indiferente, estranha a um primeiro contato. Defendo-me com Drummond, o eterno “gauche”, dizendo que sou típica mineira, argumentos fajutos, na realidade é timidez mesmo. Mas a partir do momento que me desarmam, podem se considerar no recôndito do meu coração. Coração, órgão que tenho que cuidar, devido as circunstâncias da idade balzaquiana, tenho tendência a problemas cardíacos, mas sei que amo e sou amada, e isso pra mim é, um aditivo importante.

Ah, meus 30 anos. Se minha vocação literária me incita a ler Honoré de Balzac, nada me impede, porém, de assistir a um desenho com minha pequena sobrinha, gesto simples que me faz um bem danado. Tenho meus preciosos momentos de solidão, até mesmo para me dedicar à escrita. Aviso: não me importunem neste momento de catarse. Risos à parte tenho minhas manias, como as de dobrar minhas roupas todos os dias, além de arrumar meus papéis dentro da gaveta, meus pequenos tesouros. Minhas, meus, uso muito pronomes possessivos. Sou ciumenta, não com objetos, sim com pessoas.

Dizem que não tenho rosto de 30 anos, que bom, será que é verdade? Fico na ilusão que me basta, e quando as rugas me abordarem, espero manter meu espírito jovem; manter o espírito jovem numa mentalidade madura. Busco ser feliz, me alegro desde as pequenas coisas. Corro atrás do que quero, sei quando devo parar.
Um decênio está iniciando para mim, e creio que vai ser muito próspero em todos os aspectos. Os projetos de vida estão saindo da gaveta. Não me sinto atrasada. Conforme Affonso Romano de Sant`anna, essa idade é um ritual de iniciação para a mulher. Concordo.

Uma amiga insiste em dizer que meus textos param no momento em que está ficando bom, deixando um gostinho r de querer mais, bondade dela o “gostinho de querer mais”, mas este conceito dela em relação aos meus textos posso considerar aplicado na minha vida, sempre deixo algo nas entrelinhas.
Ando devagar, como já canta Renato Teixeira, acho que o importante é ter resultados duradouros. Escrevi esta crônica pessoal e quando chegar aos 40 anos pretendo fazer outra de como foi os próximos dez anos, e espero lá, ter cumprido, dignamente mais um ciclo.

Búzios e Tarô





Hoje me aconteceu um fato corriqueiro, mas interessante ao mesmo tempo. Entregaram-me um papelzinho na rua, com os seguintes dizeres:
D. Maria
Búzios e Tarô
Quer teu amor, amando como você o ama? (em letras garrafais).
Embaixo os telefones de contato. Do lado, desenhos de imagens, que creio ser do Candomblé, dois guerreiros que não conheço São Jorge e a inconfundível Iemanjá, com seus braços estendidos sobre o mar.
Não é raro deparar em todo canto com as artes adivinhatórias. Recordo de um fato que aconteceu comigo: um dia fui abordada por uma cigana. Eu estava com meus óculos escuros, objeto inseparável. A vidente disse que se eu desse os óculos para ela, revelaria o nome de uma pessoa muito falsa em minha vida. Delicadamente, me esquivei da insistente cigana. Não sem antes observar os reluzentes dentes de ouro em sua boca, o que é comum entre eles. Os ciganos, cheios de artimanhas para convencer o público a se renderem à arte da quiromancia. Dizem que o povo cigano é o guardião da liberdade. Não sei, só sei que não dei meus óculos.
As artes adivinhatórias. Na época da extinta Babilônia, os magos se orientavam pela Astrologia, ciência hoje ainda seguida pelos hindus, que não fazem suas tarefas sem saber o que os astros reservam, haja tempo para a consulta. Tirésias sabia desde sempre sobre o crime que Édipo cometeria contra o próprio pai, triste fado. Sem falar na mítica Sibila de Cumas, que em seu paraíso oferecia aos ousados visitantes uma recepção com banquetes, música, boa comida e prazeres inenarráveis. Só que a sensual mulher, aos sábados, se transformava num monstro, espantando a todos seus pretendentes. Muitos foram seus feitos adivinhatórios na história lendária, mostrando os caminhos para vários heróis.
Quem leu o conto "A cartomante” de Machado de Assis, um intrigante triângulo amoroso, observou que, até um homem, dito erudito, se sentiu aliviado por uma consulta feita nas cartas: — A senhora restituiu-me a paz ao espírito, disse ele estendendo a mão por cima da mesa e apertando a da cartomante. -Fato este que acabou num final trágico.
A curiosidade do homem, a ânsia de antever o dia de amanhã o faz procurar a esses recursos, e convenhamos, essa insaciável curiosidade atinge a qualquer classe. Eu pessoalmente não acredito em adivinhações, mas confesso, fiquei instigada na hora em que a cigana me abordou e ofereceu o nome da tal pessoa em troca dos óculos; sabia que não era verdade, mas que me fiquei com um resquício de curiosidade, isso sim. Cito aqui não o ato sobrenatural e sortilégio desses “mágicos’, e sim, o jogo de persuasão para convencer seus clientes, o que realmente é relevante. E sua presença dentro da Literatura gera um vasto campo de estudo, valendo a pena conferir.

O Embaixador das Maravilhas



Eu o vi a primeira vez num anúncio de incentivo as pessoas para praticarem o bem e não desistirem de seus sonhos, não me lembro bem qual era, provavelmente estas mensagens de final de ano. Despertou minha curiosidade, eu era conselheira tutelar na época e ver a realidade das crianças não era e convenhamos, ainda não é fácil. Ele havia adotado 13 crianças. O anúncio parou de passar, mas a imagem daquele homem não.
Dois anos depois. Saiu um filme sobre Roberto Carlos Ramos. Sim, era ele. Um grande herói que conseguiu sobreviver em meio a tantos chamativos que o mundo oferecia nas ruas. Podia ter se tornado mais um menor infrator. Fora internado numa grande Instituição para recuperação de menores. Diziam que dali, as crianças saiam para ser doutores, mera ilusão!Foi deixado no local pela família aos seis anos de idade. Só que ser internado numa grande Instituição não resolve nada, se não for aplicado à afetividade, palavra chave deste homem, que se tornou um grande contador de histórias. Tudo porque soube aproveitar a chance de mudar sua vida, quando conheceu uma pedagoga francesa chamada Margherit Duvas,onde ouvira dela as palavras que soaram em estranhas em seus ouvidos “com licença” e, “por favor”. Que palavras seriam aquelas? O menino adolescente descobriu no decorrer de sua vida. A distinta senhora fez a diferença na vida daquele futuro personagem. Levou Roberto para morar com ela na França.
Um dia o adolescente de 13 anos inunda a casa daquela que lhe dera uma chance. Já predestinava, certamente, que a mulher o poderia aos préstimos da rua, porém, ao contrário, conversa com ele olhos nos olhos, perguntando o porquê fizera aquilo. O garoto, pudico, se rende a doçura daquela mulher maternal. Se emociona, estava acostumado a ser castigado.O ódio pago pelo amor, a ternura mais uma vez vence.
Margherit ficou cinco anos com o adolescente, matriculando-o em um bom colégio, onde aprende fluentemente o francês. Usa sua arma mais ágil para conquistar as pessoas, artifício já usado por Sherazade, evitando a doce heroína de ser morta pelo sultão: o dom da palavra, a oralidade presente desde a Antiguidade. Artimanha que o garoto usava desde os tempos da velha Instituição para conseguir um pedaço de pão a mais e sair de situações vexatórias. Usa a imaginação em suas palavras, é denominado “O Embaixador das Maravilhas” por seus colegas franceses, que viviam o cercando em busca de uma nova aventura.
Volta à antiga Instituição como pedagogo, as coisas não mudaram no local. O negócio é ele fazer a diferença, assim como Margherit a fez em seu tempo. Conquista a confiança dos internos, consegue adotar um, hoje são treze filhos, fora os que abrigou por um determinado tempo.
O contador de histórias, o vi esta semana dando entrevista na T.V. Seu jeito carismático, espontâneo, um sorriso que amolece qualquer coração endurecido. Seu modo de contar, sem abuso de vernáculo...Ele é assim, simples... Podia ser apenas mais um anônimo. Consegue hoje ter uma vida confortável, através do estudo proporcionado, correu atrás do que queria. Um dos melhores contadores de histórias do mundo. Contou com um anjo em seu caminho e arregaçou as mangas...Reflito: Temos como rigor as medida aplicadas ao menores, O Estatuto Da Criança e Adolescente para amparar, porém , o resultado nem sempre é eficaz. O motivo desta realidade? Ainda não colocaram a palavra AFETO, como diz o nobre Roberto. Afeto, a base da relação. A palavra afeto do latim affectur (afetar, tocar) que é capaz de fazer grandes transformações.
Encerro esta crônica, com o conselho do Contador de Histórias, que diz que podemos contar nossa história de dois modos, uma é de um jeito cabisbaixo, lamentável, para que as pessoas sintam piedade, a outra é sabendo ultrapassar as barreiras, sabendo achar graça das dificuldades e enfrentando a vida de peito aberto. São duas opções, saibamos escolher a nossa!

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LANÇAMENTO DO LIVRO

PRIMEIRO LIVRO DE CRÔNICAS, INTITULADO “RIQUEZAS DO INTERIOR” DA ESCRITORA ELENISE EVARISTO. Este projeto visa divulgar novos nomes e publicações relacionados a Cultura da Cidade de Três Corações, através do lançamento do livro de crônicas “Riquezas do Interior”, da iniciante escritora Elenise Evaristo, contemporânea, mineira, dotada de sensibilidade e cultura e que com estes adjetivos, retrata na sua primeira publicação, embora já tenha sido apresentada ao mundo literário, através da publicação de um artigo, em livro lançado em 2008, intitulado: Quem conta um Conto de Fadas... Uma introdução aos contos de fadas dos Org. Geysa Silva e Luiz Fernando Matos Rocha. INTRODUÇÃO O Estado de Minas famoso por reunir marcas de um passado de riquezas Patrimoniais e Arquitetônicas, trazidas pelo Barroco e Rococó produzidos no século 18, e que garantiu que parte das cidades históricas adquirissem títulos de patrimônio da humanidade por parte dos órgãos responsáveis, possui ainda mais requinte quando se trata do legado da Cultura popular deixada pelos povos mais antigos. A cultura mineira tradicional fértil e diversificada, atravessa tempos e mostra para o Brasil a importância de se abrasileirar ainda mais as nossas tradições !

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Eu,por mim mesma: Virginiana, Terra, Melancólica. Tímida, Dedicada, Ciumenta, Muito Amor: Deus, família, alguém que sabe quem, amigos, Minas Gerais,e Literatura. Impulsiva, Sensível, Aspirante à escritora. Prazer: pôr-do-sol, cheiro de café coado de preferencia no coador de pano, cheiro de terra molhada, cheiro de curral, brincar com meus sobrinhos, comer bolinhos de chuva, ouvir música, assistir filmes, amo momentos simples e extasiantes Amo cozinhar. Adoro Conversar com pessoas e me encontrar nos meus momentos de solidão.

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